Afinação da Bateria Parte 2 – Madeiras,Tambores e Cascos

Clodoaldo Paiva - Tipos de Madeira para Bateria - Como Afinar a bateria

Continuando nossa série de artigos na busca de entender melhor o mundo dos tambores, e tirar o melhor que a sua bateria tem a oferecer, entendendo cada vez mais dos aspectos físicos e técnicos em prol de uma sonoridade perfeita e afinada, com o que você busque dentro da sua música.

No artigo passado falamos sobre o que é o Envelope dinâmico.

Neste capítulo vamos falar dos tipos de madeiras e outros materiais usados na fabricação dos cascos e tambores.  

 

 

Cedro:

Ficou muito popular entre as guitarras inicialmente e devido a praticidade e corte e a facilidade em obter chapas finas com boa densidade, começou a ser usado no Brasil popularizando-se na segunda metade dos anos 90. Possui uma boa envergadura, o que facilita a criação do tambor, tem um timbre mais grave com harmônicos mais agudos no decay, é uma madeira que produz um bom corpo, mas a longo prazo se não for bem cuidada apresentará déficit sonoro decorrente de rachaduras. Tem uma cor mais voltada para o rosa e de cheiro suave, porém, bem marcante.  

Bapeva:

Ganhou mercado no final dos anos 90 no Brasil quando a RMV começou a fabricar seus modelos com essa madeira. Se tornou líder de mercado durante alguns anos no Brasil. É uma madeira com similaridades ao Maple Canadense no que diz respeito a densidade e projeção sonora. Madeira comumente conhecida como “goiabão” ou “araçá-piranga” é natural do centro oeste do país, tem uma cor avermelhada ou amarela pálida. Seu cheiro é bem distinto e muito resistente para o fim musical, porém precisa ser bem acondicionada pois é um glorioso manjar aos insetos e cupins.   

Copaíba:

Além das descobertas no campo medicinal, musicalmente falando é uma madeira surpreendente, com brilho distinto e equilibrado e graves pontuais com muito ataque, acabam por dar vida à instrumentos de ótima qualidade a um baixo custo. Fácil de controlar, não tem muito volume de som, se comparado com a bubinga ou maple, mas para nossa realidade no Brasil é um instrumento excelente tem um timbre muito definido, é uma madeira muito densa de cor avermelhada e cheiro bem característico.  

Araucária:

Madeira ainda considerada em estado de extinção só se permite sua utilização provinda de rigoroso controle fiscal do país bem como medidas de contrapartida como reflorestamento e corte consciente. É uma madeira que conseguiu galgar um bom espaço no mercado internacional, com um corpo sonoro médio grave e com boa projeção sonora ela também se destaca pela sua beleza e pela facilidade no manuseio durante a fabricação dos cascos, além de prover lâminas finas devido sua densidade sem perder as características sonoras, quando chamadas as altas frequências respondem com beleza e agressividade, no mercado nacional sem dúvida é uma das melhores que temos, seu manuseio e comercialização, assim como a copaíba começaram através da fábrica Odery Drums.

Teca:

Madeira proveniente da Índia, é cultivada e regulamentada no brasil para utilização segundo as leis de reflorestamento, tem graves muito agressivos o que para bateria é excelente e uma ótima projeção sonora, Sua beleza e a forma de suas “veias” chama muito a atenção e cria um aspecto estético lindo colocando-a no patamar das madeiras nobres  
 

Mogno:

O mogno é uma madeira existente em várias partes do mundo, de todas as madeiras já pesquisadas é a que tem maior ataque nos graves e densidade, seus veios finos e irregulares propiciam uma sustentação sonora além do padrão, porém, não é uma madeira muito fácil de trabalhar além de ser esteticamente feia para acabamentos. Devido ao tempo que ela leva pra o plantio e corte bem como suas qualidades acústicas os instrumentos feitos de Mogno principalmente o africano acabam ficando dentre os mais caros.

Bubinga:

Outra madeira de origem africana, que assim como o mogno possui uma frequência de graves acima da média, madeira escura e de veias grossas, tem muito volume e projeção sonora devido suas veias longas, seu tronco passa fácil do 1 metro de diâmetro e pode chegar fácil a ter 50 metros de altura.  

Birch:

Destacado à frente de todas como a madeira mais equilibrada entre médios, agudos e graves se tornou a preferida nos estúdios de gravação, fácil de afinar e de chegar a um ponto de versatilidade que as outras madeiras até agora não conseguiram atingir, seu som é presente e equilibrado o que dá um brilho a mais à estes tambores.

Maple:

Talvez seja a madeira mais utilizada na fabricação de baterias juntamente com o Birch e o BassWood. Existem mais de 120 tipos de maple hoje registrados, sendo que em algumas partes do mundo ele é usado como alimento devido a concentração de açúcares nessa madeira, mas ela além dessa “doçura” toda (mais uma da série trocadilhos infames fora de hora), ela também é uma madeira com graves muito sólidos e equilibrados e agudos harmoniosos, além de ser uma madeira resistente para botar na estrada em shows e coisas do tipo. O mais comum é vermos baterias feitas com o maple amarelo ou branco, mas existe também o maple vermelho que é um pouco mais denso e rígido que os demais. A árvore de Maple é muito linda também, vale a pena você fazer uma pesquisa.    

Basswood:

Das madeiras utilizadas na fabricação de baterias é considerada a menos nobre, natural de clima temperado têm “veias” mais secas, e uma tendência aos graves, ficou muito popular na fabricação de corpos de guitarras também. No geral não podemos discriminá-la por ser considerada “inferior” é que a gama de frequência dela a torna limitada e sua fragilidade deixa o instrumento a desejar, contudo quando bem acabada e salvos a forma correta de guardá-la viram um canhão, em alguns casos podem surpreender, ao adquirir um tambor desses à colagem das lâminas e o acabamento das bordas tornam-se imprescindíveis para se ter um bom tambor.

OAK:

Oak é uma madeira de características graves com fibras que vão de uma porosidade da mais espaçada ao mais conjunta possível, e de maneiras intercaladas, isso proporciona a ela um cancelamento natural nas médias frequências, e lhe confere muito ataque e massa sonora (volume), proporcionando um decai de 77 milesegundos (ms) à uma frequência de 80 Decibéis (Db) no seu ponto mais alto, podendo chegar aos 366 ms de reverberação, com tudo, sua faixa de frequência fundamental está sempre em torno de 214 Hz (uma zona que ela não tem muita potência naturalmente, isso somado as suas fibras intercaladas, gera uma cama de somas e cancelamentos que lhe proporcionam tamanho volume e projeção sonora, é uma madeira mais dura e com boa densidade, o que lhe confere uma boa resistência, e com sua tendência aos graves, acaba sendo um ótimo instrumento para estilos mais agressivos como o Hard Rock e o Metal.

Poplar (Álamo):

 É uma madeira também muito utilizada em baterias de entrada, e a produção em série se facilitou por ser uma árvore que cresce relativamente rápido, esteticamente é mais bonita para acabamentos que o Basswood, no entanto é uma madeira com pouquíssima projeção sonora, por este motivo é comumente usada em conjunto com outras madeiras na fabricação da bateiras. A Tama e a PDP tiveram em suas linhas baterias construídas 100% em Poplar (Tama – Imperialstar e PDP – X7). A mistura do Poplar com o Maple na fabricação dos tambores, gera uma característica sonora mas Vintage, como podemos ouvir nos primeiros kits da Ludwig.

Kapur:

 É uma madeira sem muito histórico na industria musical, no entanto duas marcas tem investido nesta madeira com mais entusiasmo (Pearl e Tama) É uma madeira de veias bem definidas e muito extensas e de muita densidade, muito similar ao mogno neste aspecto, tem um loudness com uma curvatura bem nítida, gerando um ataque nos graves com corpo e definição, e as altas frequências, muito bem controladas, o ponto negativo fica pelo aspecto do volume geral do instrumento que não é tão alto e com um decay sonoro muito rápido, ou seja, em locais que não exigem muito volume e mais controle, se tornam a ferramenta perfeita, além do preço também ser mais acessível, se tornam baterias semi-profissionais de altíssima qualidade.

Ash:

É uma madeira comumente usada na fabricação de guitarras, sua característica sonora é muito limitada, com fibras grossas e porosas, se torna uma madeira muito agressiva. Com ataques cortantes e muito grave é um tambor com boa projeção de sonora e responde às baixas frequências muito bem, está madeira apresenta um envelope dinâmico mais curto, ou seja, o som “morre” mais rápido.

Marfim:

O marfim é outra madeira nacional que vem ganhando mercado e caindo no gosto do brasileiro desde o início dos anos 2000. Em primeiro lugar o custo acessível desses tambores facilitou a adesão no mercado, mas claro se não fosse sua sonoridade e praticidade não teria se mantido tanto tempo. É um tambor geralmente bem equilibrado que agrega peculiaridades do maple e do birch. Tem um grave encorpado e com um ataque suave, seu decay é atenuado entre médios e agudos, o que facilita seu controle em estúdio, porém sua capacidade sonora, ou seja, seu volume natural é o seu ponto fraco, a resistência desta madeira a longo prazo também não é satisfatória, no entanto se justifica pelo seu preço de mercado.

Beech:

Madeira de característica nobre, comumente usada pela Yamaha, o Beech tem características de cor clara e se classifica entre o maple e o birch, é uma madeira bem equilibrada porém limitada, mesmo sendo mais evidente nas regiões de média frequência, falta-lhe uma presença no seu envelope dinâmico substancial, seu som é “mais para dentro” tem um tiro (ataque) curto e sem muita pressão e seu decay é harmonioso e equilibrado com leve tendência as altas frequências e baixas frequências (grave) bem definidos. Isso a torna propícia a gravações, porém para estilos de baixo volume onde não seja necessário um ataque tão evidente e muita pressão sonora (mpb, jazz etc.), é um excelente tambor, porém com grandes limitações.

Spruce:

 É um tipo de pinheiro e/ou araucária oriunda do leste europeu, proveniente das regiões mais frias, de textura macia e com uma porosidade mais amena possui veias mais largas e tem um timbre mais vintage. As altas tem muita definição e muito brilho, fazendo com que o tambor “fale” com mais facilidade. É uma madeira que necessita de um certo cuidado e sofre drásticas alterações sonoras no calor, quando o tambor é feito de uma arvore nova. É uma madeira nova no mercado mas se tornará mais comum a partir de 2018 com fabricações de baterias por parte da DW Drums e da Tama.

Walnut:

É uma madeira que possibilita muito ataque e projeção sonora, no entanto seu decay é sempre para o grave, com um aspecto mais dark e aquela ressonância tipica dos kits vintage, o que se torna uma madeira excelente de se trabalhar principalmente na construção caixa. Com veias largas e muito bem definidas se torna linda no acabamento, uma das empresas que se destacam ao trabalhar com esta madeira é a lendária noble & cooley.

Jarrah:

É um tipo de eucalipto oriundo da Austrália que pode chegar até 40m de altura. Com forte tendência às frequências médias-altas, madeira rígida e com fibras mais espaçadas e relativamente curtas. É muito apreciada na fabricação de caixas de bateria, pois tem uma característica metálica no som, devido a sua densidade é usada para fabricação de cascos inteiriços, maciços ou em blocos. Possui um som muito cortante e harmônicos quentes e expressivos. É comum vermos esta madeira na fabricação de móveis e pisos de alto tráfego nos EUA.

 

Além das madeiras também temos outros materiais, mais usuais na fabricação da caixa da bateria, mas também (como tem louco pra tudo nessa terra!) alguns usam nos tambores (pra nossa alegria!)  

Acrílico:

Ao que todos pensam os tambores de acrílico na maioria das vezes são mais pesados que os de madeira, tem em média 6mm de espessura e são muito rígidos, duros. Por não ter a porosidade e a textura da madeira oferece um som muito cheio e ressonante, em alguns casos difíceis de controlar, é comum não termos definição quando tocamos muitas notas em velocidades altas nos tambores de acrílico, principalmente nos mais graves.

Alumínio:

Cascos de alumínio podem ser classificados de vários tipos e espessuras, tipos de corte, torneamento e martelamento. A grosso modo são cascos de muito volume e cheio de harmônicos, com ressonância que dependendo do som que se busca é bom evitar ou controlar com abafamento e gates em caso de gravações. Para estilos como Rock, funcionam muito bem, no entanto são mais comumente usados na fabricação da caixa da bateria e raramente vemos uma bateria toda em alumínio, mas existem!

Bronze:

Material também comumente usados na fabricação de caixas, o Bronze por ser proveniente de uma fusão de materiais tem um som mais vivo e com mais brilho, com uma abrangência tonal maior.

 

E também temos os CASCOS HÍBRIDOS.

Cascos de tambores criados sob a junção desses materiais, geralmente parte com madeira e mais algum material, mas não existe uma regra específica, “quanto maior a mistura mais divertida fica para os engenheiros das empresas que não devem ter muito o que fazer pelo jeito.” (Engenheiros da indústria baterística que me perdoem, mas vocês são doidos, e nós inclusive EU! Amamos isso!). Via de regra são cascos pesados, com muitos harmônicos e sonoridades bem características, é preciso usar com cuidado e bom gosto na música, também são cascos que demandam de um cuidado maior devido a junção de materiais distintos e propriedades físicas diferentes.

 

Bom pessoal, neste capitulo vimos um pouco das madeiras e outros materiais usados na fabricação dos tambores.

Espero ter elucidado suas dúvidas com relação a este tema, e se ficou mais duvidas não hesite em perguntar. No próximo artigo falaremos sobre as espessuras e bordas dos tambores e sua influência no som final.

 

Até o próximo artigo!…

“Bumbo no Rim e Caixa no Zoio!”

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